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sábado, 17 de setembro de 2011

Livro dos Mártires - Parte 55

Traslado dos presos a Oung-pen-la; seguimento da senhora Judson
Apesar da ordem que o governador tinha dado para minha admissão no cárcere, foi com a maior dificuldade que pude persuadir o sub-carcereiro de abrir a grade. Costumava levar eu mesma a comida para o senhor Judson, para poder entrar, e depois ficava uma ou duas horas, a não ser que me expulsassem. Tínhamos desfrutado desta cômoda situação somente dois ou três dias quando uma manhã, tendo entrado o desjejum do senhor Judson que, devido à febre, não pôde tomar, fiquei mais tempo do usual; então o governador mandou chamar-me com muita pressa. Lhe prometi voltar tão logo como soubesse quais eram os desejos do governador, sendo que ele estava muito alarmado ante esta insólita mensagem. me senti portanto agradavelmente aliviada quando o governador me disse que somente queria perguntar-me acerca de seu relógio de pulso, e pareceu inusitadamente agradável e conversador. Depois descobri que sua única intenção tinha sido reter-me até que terminasse a terrível cena que estava a ponto de ter lugar no cárcere. Porque quando o deixei para voltar a minha estância, um dos criados veio correndo, e com rosto pálido me disse que todos os presos brancos estavam sendo trasladados.
 Não queria acreditar na informação, mas de imediato voltei ao governador, que me disse que acabava de saber, porém que não queria dizer-me. Sai precipitadamente à rua, esperando poder ter um vislumbre deles antes que desaparecessem de minha vista, porém em vão. Corri primeiro a uma rua, depois a outra, perguntando a todos os que via, mas ninguém queria responder-me. Finalmente, uma anciã me disse que os presos brancos tinham ido para o riacho, porque deviam ser levados a Amarapora. Depois fui correndo à ribeira do riacho, que estava a unos oitocentos metros dali, mas não os achei. Então voltei ao governador, a perguntá-lhe a causa desse traslado, e a probabilidade de sua sorte futura. O ancião me assegurou que desconhecia a intenção do governo de trasladar os presos até aquela manhã. Que desde que eu tinha saído, ele havia sabido que os presos tinham sido enviados a Amarapora, mas não sabia com que propósito. "Enviarei um homem de imediato para ver que é o que deve fazer-se com eles. Não pode fazer nada mais por seu marido", prosseguiu ele, "Tenha cuidado de você mesma".
Nunca antes tivera tanto temor ao atravessar as ruas de Ava. As últimas palavras do governador, "Tenha cuidado de você mesma" me faziam suspeitar que havia algum desígnio que eu desconhecia. Vi também que tinha medo de sair pelas ruas, e me aconselhou que esperasse até que fosse de noite, e me enviaria uma carreta, e um homem para abrir as portas. Tomei dois ou três baús com os artigos mais valiosos, junto com o baú das medicinas, para depositá-lo todo em casa do governador; e depois de confiar a casa e as instalações a nosso fiel Moung Ing e a um criado bengalês, que continuava conosco (embora não podíamos pagá-lhe o salário), me despedi, como então pensava provável, para sempre de nossa casa de Ava.
O dia era terrivelmente quente, mas obtivemos um barco coberto, no qual estávamos toleravelmente cômodos, e chegamos a uns três quilômetros da casa de governo. Depois procurei uma carreta; mas as violentas sacudidas, junto com o terrível calor e o pó, quase me alienaram. E qual foi minha frustração quando cheguei no edifício da corte de justiça, e descobri que os presos tinham sido enviados fora duas horas atrás, e que devia ir de forma tão incomoda sete quilômetros mais, com a pequena Maria em meus braços, a qual tinha carregado todo o caminho desde Ava! O carreteiro recusou prosseguir, e depois de esperar uma hora sob o ardente sol, consegui outro, e me dirigi àquele lugar que jamais poderei esquecer, Oung-pen-la. Obtive um guia de parte do governador, e me conduziram diretamente ao pátio da prisão.
Mas que cena de miséria vi diante de meus olhos! O cárcere era um velho edifício em ruínas, sem telhado; a cerca estava totalmente destruída; oito ou dez birmaneses estavam acima do edifício, tratando de fazer algo semelhante a um refúgio com folhas, enquanto que abaixo de uma pequena proteção fora do cárcere se encontravam os estrangeiros, acorrentados juntos de dois em dois, quase mortos de sofrimento e cansaço. As primeiras palavras de teu irmão foram: "Por que vieste? Esperava que não me seguisses, porque não pode viver aqui".
Havia escurecido já. Não tinha refrigério para os sofredores presos nem para mim mesma, porquanto havia esperado conseguir todo o necessário no mercado de Amarapora, e não tinha refúgio para a noite. Pedi a um dos carcereiros se podia levantar uma pequena casa de bambu perto dos presos. "Não, não é o costume", me respondeu. Então lhe roguei que me procurasse um refúgio para a noite, e pela manhã procuraria um alojamento. Me levou a sua casa, na qual havia somente duas estâncias pequenas; numa vivia ele e sua família, a outra, que então estava meio cheia de grão, ma ofereceu; e naquela suja habitação passei os seguintes seis meses de miséria. Consegui algo de água meio fervida, em lugar de meu chá, e vencida pela fadiga me deitei numa esteira estendida sobre o arroz, e tratei de obter algo de descanso dormindo. A manhã sangue teu irmão me contou o que segue acerca do brutal tratamento que tinha recebido ao ser tirado do cárcere.
Tão logo como tive saído pela chamada do governador, um dos carcereiros se precipitou na pequena estância do senhor Judson, o tomou violentamente do braço, o tirou fora, o despiu de sua roupa exceto pela camisa e as calças, tomou os sapados, o chapéu e toda sua roupa de cama, lhe tirou os ferrolhos, amarrou uma corda em volta da cintura, o arrastou à casa do tribunal, onde antes tinham sido levados os outros presos. Foram depois amarrados de dois em dois e entregues em mãos do Lamine Wun, que foi na frente deles a cavalo, enquanto seus escravos conduziam os presos, sustendo cada escravo uma corda que amarrava a dois presos juntos. Isto aconteceu em maio, um dos meses mais quentes do ano, e às onze da manhã, quando o sol era verdadeiramente intolerável.
Tinham caminhado somente um quilômetro quando os pés de teu irmão ficaram tão cheios de bolhas, e tão grande era sua agonia, inclusive numa etapa tão primária da viagem, que ao passar num riacho anelava jogar-se na água para livrar-se de seus sofrimentos. Somente o impediu a culpa unida a tal ação. Restavam seis quilômetros de caminho. A areia e a brita eram como carvões acesos para os pés dos prisioneiros, que logo ficaram em carne viva; neste mísero estado foram fustigados por seus implacáveis condutores. O estado de debilidade do senhor Judson, a causa da febre, e ao não ter tomado alimentos pela manhã, o fazia menos capaz de suportar aquelas dificuldades que os outros presos.
A meio caminho se detiveram para beber, e teu irmão rogou ao Lamine Wun que lhe permitisse ir em seu cavalo por um ou dois quilômetros, porque não podia continuar naquele terrível estado. Mas a única resposta que recebei foi um olhar maligno. Depois pediu ao capitão Laird, que estava amarrado com ele, que lhe permitisse apoiar-se em seu ombro, porque estava caindo. Isto o concedeu aquele gentil homem por um ou dois quilômetros, porém depois achou insuportável aquela carga agregada. Justo então se aproximou deles o criado bengalês do senhor Gouger e, vendo a angústia de teu irmão, tirou o turbante, que estava feito de tecido, o partiu em dois, deu a metade a seu amo, e a metade ao senhor Judson, que de imediato o usou para vendar seus pés feridos, porque não lhes permitiam repousar nem um momento. O servo ofereceu então seu ombro ao senhor Judson, e assim o levou o resto do caminho.
O Lamine Wun, ao ver o estado lastimoso dos presos, e que um deles tinha morrido, decidiu que não prosseguiriam mais naquela noite, pois senão teriam continuado até chegar a Oung-pen-la aquele mesmo dia. Ocuparam um pequeno barraco naquela noite para descansar, mas sem esteira nem travesseiro, nem nada para cobrir-se. A curiosidade da mulher do Lamine Wun a induziu a visitar os presos, cujos sofrimentos suscitaram sua compaixão, e ordenou que lhes dessem algo de fruta, açúcar e tamarindos para alimentá-los. A manhã seguinte lhes preparou arroz, e pobre como era este alimento, foi para refrigério dos presos, que no dia anterior não tiveram quase nenhum alimento. Também se prepararam carretas para levá-los, porque nenhum deles podia caminhar. Durante todo este tempo os estrangeiros desconheciam totalmente que iria acontecer com eles; quando chegaram a Oung-pen-la e viram o estado do cárcere, todos, unânimes, chegaram à conclusão de que seriam queimados, segundo um rumor que antes havia circulado por Ava. Todos começaram a preparar-se para o terrível fim que esperavam, e não foi até que viram preparativos para reparar o cárcere que começaram a perder a horrível certeza de uma morte cruel e lenta. Minha chegada teve lugar uma ou duas horas depois disto.
A manhã seguinte me levantei e tratei de encontrar algo de comida. Mas não havia mercado, e não se podia conseguir nada. Contudo, um dos amigos do doutor Price havia trazido algo de arroz frio e de curry desde Amarapora, o que, junto com uma xícara de chá do senhor Lansago, serviu de desjejum para os presos; para comer, fizemos um curry de peixe salgado seco, que tinha tradizo um criado do senhor Couger. Todo o dinheiro que tinha neste mundo estava comigo, escondido em minhas roupas; poderás julgar quais eram nossas perspectivas em caso de que a guerra se prolongasse muito. Todavia, nosso Pai celestial demonstrou ser melhor para nós que nossos temores porque, apesar das constantes extorsões dos carcereiros durante os seis meses que estivemos em Oung-pen-la, e das freqüentes carências às que estivemos submetidos, nunca sofremos realmente por falta de dinheiro, embora sim freqüentemente por falta de provisões, que não podíamos procurar-nos.
Aqui neste lugar começaram meus sofrimentos físicos pessoais. Enquanto teu irmão estava encerrado na prisão da cidade, tinham-me permitido ficar em nossa casa, onde me restavam muitas comodidades, e onde minha saúde tinha continuado boa além de todas as expectativas. Mas agora não tinha eu nenhuma comodidade, nem sequer uma cadeira ou assento de qualquer classe, exceto o solo de bambu. A mesma manhã depois de minha chegada, Mary Hasseltine caiu doente de varíola, de forma normal. Ela, embora muito jovem, era a única ajuda de que eu dispunha para cuidar da pequena Maria. Porém ela demandava agora todo o tempo que eu podia dedicar ao senhor Judson, que continuava com febre no cárcere, e cujos pés estavam tão terrivelmente danificados que durante vários dias foi incapaz de mexer-se.
Não sabia que fazer, porque não podia conseguir assistência dos vizinhos, nem medicina para os doentes, senão que estava todo o dia indo da casa ao cárcere com a pequena Maria em braços. Às vezes me sentia muito aliviada deixando-a dormir durante uma hora ao lado de seu pai, enquanto voltava a casa para cuidar de Mary, que tinha febre tão alta que delirava. Estava tão coberta de varíola que não se distinguia entre as pústulas. Como estava na mesma habitação que eu, sabia que Maria se contagiaria. Portanto, a inoculei de outro menino, antes que a de Mary chegasse ao estado de ser contagiosa. Ao mesmo tempo inoculei Abby e os meninos do carcereiro, e todos os tiveram tão leve que nem interrompeu suas brincadeiras. Poream a inoculação no braço da minha pequena Maria não pegou; se contagiou de Mary, e a sofreu de maneira normal. Então tinha somente três meses e meio, e teria sido uma menina muito saudável; porém demorou três meses antes de recuperar-se totalmente dos efeitos desta terrível doença.
Lembrarás que eu nunca tive varíola, senão que tinha sido vacinada antes de sair da América. Como conseqüência de estar exposta tanto tempo a ela, se me formaram quase cem pústulas, ainda que sem sintomas prévios de febre nem nada. Ao ter os meninos do carcereiro a doença em forma tão leve, como conseqüência da inoculação, minha fama se estendeu a todo o povoado, e me trouxeram todas as crianças, pequenos e mais velhos, que ainda não a tiveram, para que os inoculasse. E embora eu não soubesse nada da doença, nem da forma de tratá-la, os inoculei a todos com uma agulha, e os mandei que tivessem cuidado com suas comidas; estas foram todas as instruções que lhes pude dar. O senhor Judson foi melhorando de saúde, e se encontrou muito mais comodamente situado que quando estava preso na cidade.
Os presos foram a princípio acorrentados de dois em dois; porém tão logo como os carcereiros puderam conseguir suficientes correntes, foram separados, e cada preso teve somente dois ferrolhos. O cárcere foi reparado, se fez um novo cerco, e se erigiu um grande e arejado cobertor diante do cárcere, onde lhes permitiam estar aos prisioneiros durante o dia, embora eram encerrados no pequeno e atestado cárcere durante a noite. Todos os meninos se recuperaram da varíola; mas meus cuidados e minha fatiga, junto com minha pobre comida, somado ao mísero alojamento, trouxe sobre mim uma das doenças do país, que quase sempre é fatal para os estrangeiros.
Minha constituição parecia destruída, e em poucos dias fiquei tão debilitada que apenas se podia caminhar à prisão do senhor Judson. Neste estado debilitado, me dirigi em carreta a Ava para conseguir medicinas, e algum alimento apropriado, deixando o cozinheiro que tomasse meu lugar. cheguei sã e salva na casa, e durante dois ou três dias a doença parecia ter parado; depois disso voltou atacar-me violentamente, de modo que não me restaram esperança de recuperar-me; minha ansiedade era agora voltar a Oung-pen-la para morrer perto da prisão. Foi com grande dificuldade que recuperei meu baú de medicinas de mãos do governador, e então não tive a ninguém para ministrar medicinas. Contudo, consegui láudano, e tomando duas gotas por vez durante várias horas, me deteve a doença até o ponto de possibilitar-me subir a bordo de um barco, embora tão fraca que não conseguia manter-me em pé, e de novo me dirigi a Oung-pen-la. As últimas quatro horas de viagem foram penosas, em carreta, e em meio da estação chuvosa, quando a lama enterra os bois. Para que te dês uma idéia de uma carreta birmanesa, te direi que suas rodas não estão constituídas como as nossas, senão que são simplesmente tábuas redondas grossas com um buraco no meio, através do qual passa o eixo que sustenta a plataforma.
Apenas cheguei a Oung-pen-la quando pareceu que tivessem esgotado por completo minhas forças. O bom cozinheiro nativo saiu a ajudar-me a entrar na casa, porém minha aparência estava tão alterada e consumida que o coitado rompeu em choro ao ver-me. Me arrastei sobre a esteira na pequena estância, na que me mantive encerrada durante mais de dois meses, e nunca me recuperei perfeitamente até que cheguei ao acampamento inglês. Neste período, quando me vi incapaz de cuidar de mim mesma ou de cuidar do senhor Judson, os dois teríamos morrido, se não tiver sido pelo fiel e afetuoso cuidado de nosso cozinheiro bengalês. Um cozinheiro bengalês normal não está disposto a fazer nada além da simples atividade de cozinhar; mas pareceu esquecer sua casta, e quase suas próprias necessidades, em seus esforços por salvar-nos. Procurava, cozinhava e levava a comida de teu irmão, e depois voltava e cuidava de mim. tenho sabido que freqüentemente não tomava comida até o anoitecer, a causa de ter que ir muito longe para conseguir lenha e água, e a fim de ter a comida do senhor Judson pronta na hora indicada. Nunca se queixou; nunca pediu sua paga, e nunca duvidou um instante em ir aonde for, nem em agir da forma que desejássemos. Tenho grande prazer em falar da fiel conduta deste criado, que continua estando conosco, e confio que tem sido bem recompensado por seus serviços.
Nossa pequena Maria foi a que mais sofreu neste tempo, ao privá-la minha enfermidade de seu alimento usual, e não pudemos conseguir nem uma aia nem um pingo de leite no povoado; fazendo presentes aos carcereiros, consegui permissão para que o senhor Judson saísse do cárcere e levasse a coitada pequena ao povo, para rogar algo de alimento de aquelas mães que tivessem bebês. Seus choros em meio da noite eram para partir o coração, mas era impossível suprir suas necessidades. Aí comecei a pensar que tinham caído sobre mim as aflições de Jó. Quando estava com saúde pude suportar as várias vicissitudes e provas que fui chamada a sofrer. Mas estar encerrada, doente, e incapaz de ajudar meus seres queridos, quando estavam angustiados, era quase mais do que podia suportar. E se não tiver sido pelos consolos da religião, e por uma convicção total de que cada prova adicional estava ordenada por um amor e uma misericórdia infinitos, teria-me afundado ante o acúmulo de sofrimentos. Às vezes nossos carcereiros pareciam algo suavizados ante nossos sofrimentos, e durante vários dias deixaram que o senhor Judson viesse a casa, o que era para mim um indizível consolo. Depois voltavam a mostrar-se com um duro coração em suas exigências, como se estivéssemos livres de sofrimento, e em circunstâncias de abundância. A irritação, as extorsões, e as opressões às que nos vimos submetidos durante nossos seis meses de estância em Oung-pen-la estão além de toda enumeração ou descrição.
Finalmente chegou o tempo de nossa liberação daquele odioso lugar, o cárcere de Oung-pen-la. Chegou um mensageiro de nosso amigo, o governador da porta norte do palácio, que era anteriormente Kung-tone, Myou-tsa, informando-nos que tinha sido dada uma ordem no palácio, na noite anterior, para a liberação do senhor Judson. Aquela mesma noite chegou uma ordem oficial; e com o coração gozoso comecei a preparar nossa partida para a manhã seguinte. Porém houve um estorvo imprevisto, que nos fez temer que eu deveria continuar sendo retido como prisioneira. Os avarentos carcereiros, mal dispostos a perder sua presa, insistiram em que meu nome não estava incluído na ordem, e que eu não devia partir. Em vão insisti em que eu não tinha sido enviada ali como presa, e que eles não tinham autoridade alguma sobre mim; continuaram decididos a que eu não fosse embora, e proibiram os do povoado que me alugassem uma carreta. O senhor Judson foi então tirado do cárcere e levado à casa do carcereiro, onde, com promessas e ameaças, conseguiu finalmente seu consentimento, a condição que deixássemos a parte restante de nossas provisões que tínhamos recebido recentemente de Ava.
Era meio-dia quando nos permitiram partir. Quando chegamos a Amarapora, o senhor Judson se viu obrigado a seguir a condução do carcereiro, que o levou ao governador da cidade. após ter feito todas as indagações pertinentes, o governador designou outra guarda, que levou o senhor Judson ao tribunal de Ava, lugar ao qual chegou em algum momento da noite. Eu empreendi minha própria viagem, voltei de barco, e cheguei em casa antes que fosse escuro.
Meu primeiro objetivo na manhã seguinte foi buscar teu irmão, e tive a mortificação de encontrá-lo novamente em prisão, embora não na prisão da morte. Fui de imediato a ver meu antigo amigo o governador da cidade, que agora tinha ascendido de categoria a Wun-gye. Este me informou que o senhor Judson devia ser enviado ao acampamento birmanês, para agir como tradutor e interprete, e que estava confinado somente durante um tempo, enquanto se solucionassem seus assuntos. Cedo na manhã seguinte fui a ver de novo a este oficial, que me disse que naqueles momentos o senhor Judson tinha recebido vinte tickals do governo, com ordens de ir imediatamente a um barco dirigido a Maloun, e que lhe tinham dado permissão para deter-se uns momentos em casa, que estava de passagem. Me apressei a voltar à casa, aonde logo chegou o senhor Judson. Porém somente lhe permitiram ficar um breve tempo, enquanto eu preparava comida e roupa para uso futuro. Foi colocado numa pequena barca, onde não tinha espaço nem para deitar-se, e onde sua exposição às frias e úmidas noites lhe provocou uma violenta febre, que quase pus fim a todos seus sofrimentos. Chegou a Maloun no terceiro dia, onde, doente como estava, foi obrigado a começar de imediato a trabalhar em traduzir. Permaneceu seis semanas em Maloun, sofrendo tanto como tinha sofrido durante o tempo que tinha passado encarcerado, embora não estivesse sujeito sem ferrolhos, nem exposto aos vexames daqueles cruéis carcereiros.
Durante a primeira quinzena depois de sua partida, minha ansiedade foi menor que a que tinha sofrido na época anterior, desde o começo de nossas dificuldades. Sabia que os oficiais birmaneses no acampamento considerariam inestimáveis os serviços do senhor Judson, e modo que não empregariam medidas que ameaçassem sua vida. Pensei também que sua situação seria mais cômoda do que realmente foi; por isto minha ansiedade foi menor. Porém minha saúde, que nunca se recuperara daquele violento ataque em Oung-pen-la, foi agora diminuindo a diário, até que cão na febre com manchas, com todos seus horrores. Conhecia a natureza desta febre desde seu começo, e por causa do fraco estado de minha constituição, junto com a ausência de assistentes médicos, estava convencida de que o desenlace seria fatal. O dia em que cai doente, veio uma aia birmanesa e ofereceu seus serviços para Maria. Esta circunstância me encheu de gratidão e confiança em Deus; pois embora tinha realizado tantos esforços durante tanto tempo para conseguir uma pessoa assim, nunca tinha conseguido. E no amém momento em que mais necessitava de uma, sem esforço algum se me fez o oferecimento voluntário.
Minha febre me atacou violentamente e sem ceder um momento. Comecei a pensar em arranjar meus assuntos terrenos, e em entregar minha pequena Maria ao cuidado da mulher birmanesa, quando perdi a razão e fiquei insensível a tudo quanto havia a meu redor. Durante este terrível período, o doutor Price foi liberado da prisão, e ao ouvir de minha doença conseguiu permissão para ver-me. Desde então me contou que minha condição era a mais terrível que ele já tinha visto, e que não pensou então que eu fosse sobreviver muitas horas. Tinha o cabelo raspado, a cabeça e os pés cobertos de ampolas, e o doutor Price ordenou ao criado bengalês que se cuidava de mim que tratasse de persuadir-me a tomar algo de alimento, o qual eu tinha recusado obstinadamente durante vários dias. Uma das primeiras coisas que lembro é ver a este fiel criado de pé a meu lado, tratando de convencer-me para que bebesse algo de vinho e água. De fato, estava tão enfraquecida que os vizinhos birmaneses que vieram ver-me dissera: "Está morta; e se o rei dos anjos entrasse aqui, não poderia recuperá-la".
A febre, soube depois, esteve dominando-me durante dezessete dias desde a aparição das ampolas. Agora comecei a recuperar-me lentamente; todavia se passou mais de um mês antes de ter forças para ficar em pé. Enquanto estava neste estado de debilidade, o criado que tinha seguido a teu irmão ao acampamento birmanês chegou e me informou que seu amo tinha chegado, e que estava sendo conduzido à corte de justiça da cidade. Enviei um birmanês para que observasse os movimentos do governo, e a tomar conhecimento, se podia, de que iriam fazer com o senhor Judson. Logo voltou e me disse que tinha visto o senhor Judson sair do pátio do palácio, acompanhado por dois ou três birmaneses, que o levavam a um dos cárceres da cidade; e que se comentava pela cidade que seria devolvido ao cárcere de Oung-pen-la. Estava demasiado fraca para ouvir más notícias de nenhum tipo; mas este acontecimento repentino tão terrível quase acabou comigo. Durante um tempo apenas se conseguia respirar; mas afinal recuperei suficiente compostura para enviar nosso amigo Moung Ing a nosso amigo, o governador da porta norte, e lhe roguei que fizesse outro esforço para obter a liberação do senhor Judson, e que impedisse que fosse enviado de novo ao cárcere do campo, onde sabia que sofreria muito, porque eu não poderia segui-lo até lá. Moung Ing foi logo em busca do senhor Judson, e era já quase de noite quando o achou dentro de uma escura prisão. Eu tinha enviado alimentos à primeira hora da tarde, mas ao não poder achá-lo, o que enviei voltou com eles, o que piorou minha angústia, porque temia que fosse ser enviado a Oung-pen-la.
Se jamais tinha sentido o valor e a eficácia da oração, a senti agora. Não podia levantar-me de meu leito; nada podia fazer para conseguir a meu marido; somente podia rogar Àquele grande e poderoso Ser que disse: "E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás" [1]. Ele me fez sentir nesta ocasião esta promessa de maneira tão poderosa que fiquei serena, tendo a certeza de que minhas orações seriam respondidas.
Quando o senhor Judson foi enviado de Maluon a Ava, foi com um prazo de cinco minutos e sem saber a causa. Enquanto ia rio para acima viu acidentalmente a comunicação que tinha enviado o governo acerca dele, e que simplesmente dizia: "Não temos mais necessidade de Judson, e portanto o devolvemos à cidade dourada". Ao chegar ao tribunal aconteceu que não havia ninguém familiarizado com o senhor Judson. O oficial presidente perguntou acerca de desde onde tinha sido enviado a Maloun. Responderam-lhe que desde Oung-pen-la. "Então", disse o oficial, "que o devolvam ali". Foi logo entregue a um guarda, para ser levado ao lugar mencionado, para permanecer ali até que pudesse ser conduzido a Oung-pen-la. Enquanto isso, o governador da porta norte apresentou uma petição ao alto tribunal do império, oferecendo-se como garantia da segurança do senhor Judson, obteve sua liberação e o levou à sua casa, onde o tratou com todas as bondades possíveis, e aonde fui eu levada quando minha saúde melhorada o permitiu.
Foi num anoitecer fresco e de belo luar, no mês de março, que com corações enchidos de gratidão a Deus, e sobreabundantes de gozo ante nossas perspectivas, passamos Irrawaddy rio abaixo, rodeados por seis ou sete barcas douradas, e acompanhados de todas nossas posses terrenas.
Agora, por primeira vez em um ano e meio, sentimos que éramos livres, e já não mais sujeitos ao opressivo jugo dos birmaneses. E com que sensação de deleite vi, na seguinte manhã, os mastros de um barco a vapor, o seguro presságio de estar dentro do âmbito da vida civilizada! Tão logo como a nossa barca chegou à costa, o brigadeiro A. e outro oficial subiram a bordo, nos cumprimentaram pela nossa chegada, e nos convidaram a bordo do vapor, onde passei o resto do dia. Enquanto isso, teu irmão ia ver o general que, com um destacamento do exército, tinha acampado em Yandabu, alguns quilômetros mais abaixo no rio. O senhor Judson voltou naquela tarde, com um convite de ir Archibald para que acudisse de imediato a sua residência, onde me apresentaram na manhã seguinte, e recebida com a maior gentileza pelo general, que tinha levantado uma tenda para nós perto da dele, e que nos convidou à sua mesa, tratando-nos com a bondade de um pai mais que como estrangeiros de outro país.
Durante vários dias esta só idéia ocupou minha mente de contínuo: que estávamos fora do poder do governo birmanês, e uma vez mais sob a proteção dos ingleses. nossos sentimentos ditavam de contínuo expressões como esta: "Que pagaremos a Jeová por todos seus benefícios para conosco?"
Em breve se concertou o tratado de paz, assinado por ambas as partes, e se declarou publicamente o termo das hostilidades. Saímos de Yandabu, depois de umas duas semanas de permanência, e chegamos sãos e salvos à casa da missão em Rangún, depois de uma ausência de dois anos e três meses.
Ao longo de todo este sofrimento se conservou o precioso manuscrito do Novo Testamento birmanês. Foi colocado numa sacola e transformado num travesseiro duro para o encarceramento do doutor Judson. Todavia, se viu obrigado a mostrar-se aparentemente descuidado com ele, para que os birmaneses não pensassem que continha algo valioso e o pegassem. Mas com ajuda de um fiel converso birmanês, o manuscrito, que representava tantos longos dias de trabalho, foi guardado a salvo.

No término desta longa e trágica narração, podemos dar de maneira apropriada o seguinte tributo à benevolência e aos talentos da senhora Judson, dado por um dos presos ingleses que estiveram encerrados em Ava com o senhor Judson. Foi publicado num jornal de Calcutá ao término da guerra.
"A senhora Judson foi a autora daqueles eloqüentes e intensos depoimentos ao governo que os prepararam gradualmente para a submissão às condições de paz, que ninguém teria esperado, conhecendo a arrogância e inflexível soberba da corte birmanesa".
"E falando nisto, o derramamento de sentimentos de gratidão, em meu nome e no de meus companheiros, me levam a agregar um tributo de gratidão pública àquela amável e humanitária mulher, que, ainda vivendo a três quilômetros de distância de nosso cárcere, sem meios de transporte, e com muito precária saúde, esqueceu sua própria comodidade e fraqueza, visitando-nos quase todos os dias, e ministrando para nossas necessidades, e contribuindo em todas as formas a aliviar nossa desgraça".
"Enquanto fomos deixados sem alimentos pelo governo, ela, com uma perseverança infatigável, por um ou outro médio, nos conseguiu um constante subministro".
"Quando o estado esfarrapado de nossas roupas evidenciou a extremidade de nossa angústia, ela se mostrou disposta a substituir nosso escasso vestiário".
"Quando a insensível avareza de nossos guardiões nos mantinha no interior ou nos levava a por nossos pés em cepos, ela, como anjo servidor, nunca cessou em suas solicitudes ao governo, até que era autorizada a comunicar-nos a gratas notícias de nossa liberação, ou de um respiro de nossas amargas opressões".
"Além de todo isso, foi certamente devido, em primeiro termo, à mencionada eloqüência e às intensas petições da senhora Judson, que os mal instruídos birmaneses foram finalmente levados à boa disposição de assegurar o bem-estar e a felicidade de seu país com uma paz sincera".


Começos missionários
1800. Batismo do primeiro convertido de Carey
1804. Organização da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira
1805. Henry Martyn zarpa rumo à Índia
1807. Robert Morrison zarpa para a China
1808. A reunião do monte de palha celebrada perto do Williams College
1810. Organização da Junta Americana
1811. Os wesleyanos fundam a Missão de Sierra Leona
1812. Zarpan os primeiros missionários da Junta Americana
1816. Organização da Sociedade Bíblica Americana
1816. Robert Moffat zarpa pla a África do Sul
1818. A Sociedade Missionária de Londres penetra em Madagascar
1819. Organização da Sociedade Missionária Metodista
1819. A Junta Americana inaugura a Missão das Ilhas Sandwich
1819. Judson batiza seu primeiro convertido birmanês

EPÍLOGO À EDIÇÃO ORIGINAL


E concluímos agora, bons leitores cristãos, este tratado que nos ocupa, não por falta de matéria, senão para antes bem abreviar o tema devido à imensidade de que trata. Enquanto isso, que a graça do Senhor Jesus Cristo opere em ti, bondoso leitor, em todas tuas diligentes leituras. E quando tenhas fé, dedica-te de tal modo a ler que pela tua leitura possas aprender diariamente a conhecer aquilo que possa ser de proveito para tua alma, que te possa ensinar experiência, que te possa armar de paciência, e instruir-te mais e mais em todo conhecimento espiritual, para teu perfeito consolo e salvação em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória in secula seculorum. Amém.


[1] Salmo 50.15, ACF.

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